04/12/2006 ..

Nossa história em 100 páginas


“Eu gosto de você e gosto de ficar com você. Meu mundo é tão feliz contigo, meu melhor amigo é o meu amor”. Permitam-me começar com Marisa Monte o nosso centésimo post, como uma homenagem ao clima que se instalou aqui há 99 posts atrás.

Amizade. O que é amizade?

Muitos dizem que amizade não é uma coisa que acontece da noite para o dia, eu discordo. Ora bolas, se a gente pode se apaixonar da noite para o dia e resolver passar o resto da vida ao lado dessa pessoa, porque não poderia fazer amizades assim também? Muitas vezes as amizades simplesmente acontecem, com um olhar, um gesto, um desastre! Comigo é assim, posso ter me encontrado com alguém hoje e sentir que essa pessoa já era minha amiga desde ontem.

E a amizade está intrinsecamente ligada à gastronomia. O ato de sentar junto, dividir a mesa, as sensações, as gargalhadas! Qual é a primeira coisa que vem à nossa cabeça quando queremos comemorar? Resposta fácil: preparar a nossa melhor receita, cobrir a mesa com a nossa melhor toalha, receber amigos, dividir.

Quando uma pessoa compra um vinho muito caro, de uma safra espetacular ou raríssima e paga por ele uma fortuna, normalmente é taxado de excêntrico, de perdulário, ou coisas desse tipo. Mas pensem comigo, já viram alguém abrir uma garrafa como essa, sozinho em casa numa noite chuvosa? Certamente essa garrafa será aberta numa noite de confraternização, de comemoração, ou não, numa mesa de amigos, em meio a brindes, gargalhadas e prazeres.

Doação é amizade. Servir o melhor vinho, reunir amigos e preparar a melhor receita, receber em casa, dividir a intimidade, abrir espaço para a troca. Trocar confidências, afeto, sabores, sensações. Dividir o melhor vinho, o melhor azeite, o pão assado com carinho.

E as lembranças desses momentos, que no fundo são a única coisa que queremos em troca, a gente guarda com carinho num lugar secreto, que todos temos dentro nós, a nossa caixinha de lembranças. A esse lugar ninguém tem acesso, nem mesmo os melhores amigos. É um lugar de intimidade pessoal, como escova de dente! Mas de lá, esses amigos também não saem, têm lugar cativo. Suas carinhas estão por toda parte, nas mais diversas situações. Com as mais diversas emoções estampadas em uma espécie de foto emocional, coisa para lá de moderna, que dispensa foto digital, backup ou cartão de memória. Nesse lugar as emoções estão sempre à flor da pele, as lembranças vêm sempre com trilha sonora e o sorriso é inevitável.

Esse lugar se conquista, como se conquistam amizades, e definitivamente está provado que amizade se conquista da noite para o dia.

A prova é a nossa história, são as trocas que se promovem aqui todos os dias. A prova são vocês fazerem parte da minha caixinha de lembranças e estarem todos com as carinhas estampadas por lá, mesmo que a maioria delas, eu não tenha visto.

Talvez seja difícil explicar coisas assim. É como gostar de cachorro, quem gosta faz loucuras, trata como gente, quem não gosta, não entende... É como gostar de cozinha, quem gosta é capaz carregar uma panela que pesa 10 kg durante uma viagem de 30 dias Europa afora, quem não gosta, não entende...

Mas uma coisa é certa, quem não gosta de cachorro, nem de cozinha, terá muito mais dificuldade de tentar entender tudo isso!

Eu sou louca por cachorro e cozinha, mas tenho mania de não gostar do que eu não entendo. Faz parte da minha veia obstinada, se não entendo, logo tenho que correr atrás, entender, dominar e, quem sabe, aperfeiçoar! Mas não é só isso, não gostar do que não se entende, é também uma maneira de se defender, de se proteger, de procurar ficar num lugar seguro, que nem sempre é o mais interessante.

Entrei aqui sem entender nada, acabei gostando antes mesmo de dar tempo de entender. Enquanto isso, me atirei nos comentários sem medo de me proteger! Hoje em dia ainda não sei se entendi tudo, emoções como a que eu estou sentindo agora ainda me assustam. Mas aprendi que esse lugar apesar de não ser o mais seguro, é o mais interessante!

Então...daqui não saio, daqui ninguém me tira!

O presente pelo dia de hoje veio do “Grande Ego”: o convite para ficar!

Então...ainda vai dar tempo de satisfazer a minha obstinação!

Até!
01/12/2006 ..

Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida...



Cheguei no restaurante mais cedo, precisava resolver muita coisa! Quando chego mais cedo corro sempre esse risco: ficar de mau humor!

Todos estão atrasados, tudo está por fazer, tudo não está como deveria ser!

É como naquela velha história: quando o gato sai, o rato faz a festa, ou, quando o gato não chega mais cedo também! Fico passada com essa habilidade, se é a que gente pode chamar assim, que as pessoas têm de tirar vantagem de certas situações.

Vale pontuar, minha equipe é maravilhosa, temos um relacionamento ótimo, amo todos de paixão! Mas apesar disso, esse tipo de coisa ainda acontece. Fico furiosa! Mas essa irritação tem um sentido, nosso trabalho requer empenho, responsabilidade, superação. Trabalhamos com detalhe. Detalhe é coisa séria, coisa de gente grande, ou não.

Estava totalmente fora do meu prumo, quando resolvi abrir meus e-mails e me deparei com o site oficial do nosso pequeno Vittorino.

O mundo parou de rodar, minha emoção foi se assentando, os batimentos do meu coração voltaram aos níveis que a minha médica recomenda e a sensação de abraço tomou conta de mim. Vocês já sabem o que eu penso de abraço, então, podem imaginar a sensação que me invadiu.

Que luz, que energia, que felicidade poder compartilhar tudo isso de maneira tão intensa. Simplesmente como “alguns bons amigos bebendo de bem com a vida!”.

Que momento incrível, intenso e o melhor de tudo, repleto de detalhes.

É, detalhe é coisa de gente grande, ou não...


Até!

30/11/2006 ..

Vittorio


Hoje era dia de encerrar a trilogia, tentei começar a escrever sobre isso, mas não fui capaz de terminar. Hoje é dia de falar de uma coisa só: alegria!

Desde que estamos aqui, tivemos dias de muita intensidade nos comentários, polêmica, confusão, entusiasmo! Uma verdadeira família italiana. Conseguimos até promover um colapso no sistema na tentativa de falarmos todos juntos! Ainda não conseguimos, mas quem é capaz de nos segurar?

Apesar disso, acho que nunca tivemos um dia de tanta alegria, de tanta emoção. Ficamos todos inquietos, confusos, ansiosos, perdidos, até a chegada da grande notícia: Vittorio nasceu!

“Vittorio nasceu”, gritamos atordoados! “Vittorio nasceu”, escrevemos empolgados! “Vittorio nasceu”, e o sentimento geral foi de alegria, de alívio, de abraço...

Pude ver na minha mente as cenas protagonizadas por cada confrade ao receber a grande notícia e nessas cenas só ficava faltando o abraço. Sentimos uma vontade quase insuportável de romper essa tela e criar uma cena típica de filme tipo a máquina do tempo. Onde poderíamos todos nos encontrar e simplesmente nos abraçarmos, muito, e de uma só vez.

Abraço. Abraço é algo muito sério. Mais sério do que beijo. Abraço requer comunhão profunda, entrega, conquista. Conquista de algo raro: intimidade. Intimidade é coisa mais do que séria. Intimidade é tesouro.

Vittorio e a emoção que o escoltou a esse mundo são as provas de que a intimidade que aqui se criou é um abraço.

Viva! Vittorio!

Viva! Ana de Bruxelas!

Viva! A intimidade!

Viva! O abraço!

Até!
29/11/2006 ..

Sinceridade


“A liberdade é azul” é o primeiro filme da trilogia de Kielowski, dedicada às cores e aos ideais de uma revolução, nesse caso a francesa. Depois vem “A igualdade é branca”, “A fraternidade é vermelha” e “A sinceridade é a receita”!

Bem, os três primeiros são grandes filmes, fruto da mente e da genialidade de um cineasta fantástico. O quarto, ou seja, “A sinceridade é a receita”, não é um filme, mas uma fantástica descoberta, que também faz parte de uma trilogia, a nossa, inaugurada ontem com: a doação.

Tenho passado por muita coisa nesses últimos tempos. Tenho sorrido muito e apanhado muito. Ensinado muito e aprendido demais. Meu nível de doação tem andado acima do normal, mas também tenho recebido muito, ou não. Tenho me deparado com situações e situações.

Sabe, “ser” um restaurante não é uma tarefa fácil, não mesmo. Vira e mexe, apesar da nossa pretensão em agradar, acolher e acalentar, acabamos nos deparando com a maldita insatisfação. Muitas vezes essa insatisfação tem seus motivos e outras vezes é motivada por razões que a própria razão desconhece. Os caminhos para enfrentar esses obstáculos são muitos, alguns mais fáceis, outros... Bem, vocês que me conhecem podem imaginar a minha escolha!

Na verdade tenho optado pelo caminho aparentemente mais difícil e que no fundo tem se mostrado ser simplesmente o melhor: a sinceridade.

Dessa maneira tenho tido a oportunidade da reconstrução, a conquista de grandes encontros, a sensação da satisfação. A satisfação mútua. O que pode ser melhor?

Aqui foi assim também, por isso, não me admiro que sejamos tão próximos, tão intensos e inteiros. Fomos sinceros desde o princípio e isso nos propiciou a sensação dessa satisfação, de liberdade, de naturalidade, de confiança e aconchego. E assim promovemos, do nosso modo, uma revolução também.

Com certeza o dia de hoje será muito especial para todos nós. Acreditem.

Até!

28/11/2006 ..

Delicadezas


Esse ano, tivemos a sorte de poder servir trufas brancas de Alba no restaurante. Nos custou à bagatela de US$ 4 mil, o quilo. Claro que não passamos das 200 gramas, mas curtimos como se fossem quilos!

No dia da chegada ficamos todos ansiosos, apreensivos, compenetrados. A caixinha então finalmente chegou, abrimos com todo cuidado e o aroma absurdo tomou conta da cozinha. Estavam lindas, douradas, inteiras, sem pontinhos ou furinhos, vibramos de alegria: sem dúvida se tratavam de trufas verdadeiras e de boa procedência.

Conseguir essas trufas é uma tarefa mais difícil do que parece, primeiro porque as trufas são conhecidas como “diamantes da cozinha”, difíceis de serem encontradas, impossíveis de serem cultivadas. O que significa que existem ou não segundo a vontade da natureza. Para mim essa é a característica mais fantástica desses tubérculos, ou seja, são soberanos e só por isso já merecem todo o meu respeito.

As brancas, consideradas as mais nobres, fazem a sua “aparição”, digamos assim, em novembro e são encontradas na Itália, na região de Alba, no Piemonte. Normalmente estão escondidas a 25cm do solo e a caçada se dá com a ajuda de cães treinados para farejá-las e não comê-las, o que deve ser um desespero para os bichinhos, pois o aroma é inebriante. Antigamente porcos eram usados nessa caçada, mas ao contrário do que se pensa, porcos não são animais burros, muito pelo contrário, são inteligentíssimos. Moral da história: encontravam as trufas e imediatamente as degustavam! Por causa disso foram substituídos pelos cães, inteligentes também, mas com uma inteligência mais intelectualizada, digamos assim, já que trocam a mercadoria por uma recompensa à altura: normalmente um biscoito ou uma salsicha! A natureza é sábia!

Como se isso não bastasse, pagar um valor altíssimo não significa necessariamente ter acesso a trufas de qualidade. Mais uma vez entra aí a confiança e o relacionamento com o fornecedor. Normalmente os restaurantes que oferecem trufas, cobram acertadamente por isso um valor a altura. Ainda assim, posso lhes garantir, é muito difícil que tenham um lucro abusivo em função disso. Tem coisas que são caras, tem coisas que são raras e tem coisas que são caras e raras. Mais uma vez, é a lei da natureza que manda.

Contrariando não a lei da natureza, mas a do mercado, resolvemos fazer mais um vôo suicida em direção ao nosso maior objetivo: a delicadeza. Decidimos servir as trufas durante três semanas no nosso menu diário sem cobrar um tostão a mais por isso. Encaramos como mais uma delicadeza que estaríamos oferecendo ao nosso cliente durante esse período. A gente adora a delicadeza!

Resultado? Deu de tudo! Gente que nem se deu conta do que estava acontecendo. Gente que nem se importou. Gente que não achou nada de mais no gesto. Gente que reclamou de coisas sem sentido e nem por um minuto parou para pensar no gesto. Gente que achou a delicadeza tão sem cabimento que sentenciou que as trufas não poderiam ser verdadeiras!

O "score" final foi o seguinte: apenas um cliente, assíduo e de uma elegância nata, não só percebeu o gesto e a qualidade das trufas, como manifestou o desejo de pagar corretamente por isso, mesmo que não quiséssemos. Como não aceitamos, encontrou uma maneira delicada de retribuir: abriu naquela noite três das nossas garrafas de vinho mais raras e caras. Mais uma vez a lei da natureza: elegância vem de berço e está implícita nas atitudes, na visão delicada, nos gestos naturais.

Ainda assim já decidimos: no próximo ano faremos de novo. Faz parte da nossa obstinação em disseminar a delicadeza. Este ano aprendemos mais uma: mesmo para gestos como esses de extrema doação, é preciso ter coragem, persistência e fé.

Como nunca perco a fé, ontem fui agraciada com a delicadeza em natura. À minha espera, na minha amada cozinha, sob os cuidados atentos do Frederico, encontrei uma linda cesta, forrada com guardanapos de linho, os quais delicadamente apoiavam os mais lindos e frescos scoones da face da terra, um pacotinho charmoso de chá com o aroma mais inebriante do que o das trufas e dois exemplares das minhas amadas Bonne Mamans de Fraise! Delicadezas dignas de pessoas de berço, de pessoas de alma pura, de pessoas que freqüentam esse espaço, que fazem esse espaço!

Bia Petis, reverência, outra reverência.

Até

27/11/2006 ..

Segundas feiras...again!



Na correria típica das segundas-feiras, erroneamente conhecidas como “meus dias de folga”. Aqui estamos nós outra vez!

É como aquela história do carnaval, que costumo comparar com o trabalho na cozinha: a gente trabalha o ano inteiro...para tudo se acabar na quarta-feira! No nosso caso, a gente trabalha o dia inteiro...para tudo se acabar em duas horas...

Independente desses aspectos, assim como os carnavalescos, a gente espera ansiosos pelo momento de sonho! E espera também, porque não ser sincero, pelo momento de descanso! Mas esse parece que não vem... E quando vem, chega atrasado! Por falar nisso, atrasada estou eu! Então aí vai o troféu segunda-feira: receitinha!

Acho que vocês vão começar a gostar das segundas-feiras!

Até!

Tartare de salmão e laranja lima
Por Roberta Sudbrack

Receita para 8 pessoas

Ingredientes:

· 100 g de salmão fresco
· 2 colheres de chá de suco de limão
· 1 colher de sopa de azeite de oliva extra-virgem
· 6 laranjas lima
· 100ml de aceto balsâmico
· Sal
· Pimenta-do-reino moída na hora


Modo de preparo:
Corte o salmão em cubos bem pequenos.
Tempere com o suco de limão, o azeite de oliva, o sal e a pimenta. Deixe na geladeira por no mínimo uma hora.
Corte as laranjas em gomos retirando toda a película branca.
Em uma panela pequena coloque o aceto balsâmico e deixe reduzir em fogo baixo, até adquirir uma consistência cremosa. Deixe esfriar. Caso fique muito consistente, aqueça ligeiramente na hora de servir.
Retire o salmão da geladeira alguns minutos antes de servir.
Em um prato disponha as fatias de laranja e o salmão. Regue com o aceto balsâmico reduzido e sirva.
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